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Esboço Histórico da Igreja Presbiteriana do Brasil
Dr. Alderi Souza de Matos
Atualmente existem no Brasil várias denominações de origem reformada ou
calvinista. Entre elas incluem-se a Igreja Presbiteriana Independente,
a Igreja Presbiteriana Conservadora e algumas igrejas criadas por imigrantes
vindos da Europa continental, tais como suíços, holandeses e húngaros.
No entanto, a maior e mais antiga denominação reformada do país é a Igreja
Presbiteriana do Brasil. Ao mesmo tempo, convém lembrar que, já nos primeiros
séculos da história do Brasil, houve a presença de calvinistas em nosso
país.
I. Primórdios do Movimento Reformado no Brasil
1. A França Antártica
Os primeiros calvinistas chegaram ao Brasil ainda no começo da nossa história.
No final de 1555, um grupo de franceses liderados por Nicolas Durand de
Villegagnon instalou-se em uma das ilhas da Baía da Guanabara. Um ano
e meio mais tarde, chegou à "França Antártica" um grupo de colonos e pastores
reformados enviados pelo próprio João Calvino, em resposta a um pedido
de Villegagnon. No dia 10 de março de 1557 esses evangélicos realizaram
o primeiro culto protestante do Brasil, e possivelmente do Novo Mundo.
Eventualmente, surgiram desavenças teológicas entre Villegagnon e os calvinistas.
Cinco deles foram presos e forçados a escrever uma declaração de suas
convicções. O resultado foi a bela "Confissão de Fé da Guanabara." Com
base nessa declaração, três dos calvinistas foram executados e outro foi
poupado por ser o único alfaiate da colônia. O quinto autor da confissão
de fé, Jacques le Baleur, conseguiu fugir, mas foi preso e mais tarde
enforcado. Entre os que conseguiram retornar para a França estava o sapateiro
Jean de Léry, que mais tarde tornou-se pastor e escreveu a célebre obra
Viagem à Terra do Brasil (1578).
2. O Brasil Holandês
A próxima tentativa de introdução do calvinismo no Brasil ocorreu em meados
do século XVII por meio dos holandeses. No contexto da guerra contra a
Espanha, a Companhia das Índias Ocidentais ocupou o nordeste brasileiro
por vinte e quatro anos (1630-1654). O mais famoso governante do Brasil
holandês foi o Conde João Maurício de Nassau-Siegen, que aqui esteve por
apenas sete anos (1637-1644). Embora os residentes católicos e judeus
tenham gozado de tolerância religiosa, a igreja oficial da colônia era
a Igreja Reformada da Holanda, que realizou uma grande obra pastoral e
missionária. Ao longo dos anos foram criadas 22 igrejas e congregações,
dois presbitérios (Pernambuco e Paraíba) e até mesmo um sínodo, o Sínodo
do Brasil (1642-1646). Além da assistência aos colonos europeus, a igreja
reformada fez um notável trabalho missionário com os indígenas. Ao lado
da pregação e ensino, houve a preparação de um catecismo na língua nativa.
Outros projetos incluíam a tradução das Escrituras e a ordenação de pastores
indígenas, o que não chegou a efetivar-se. Com a expulsão dos holandeses,
as igrejas nativas vieram a extinguir-se e por um século e meio desapareceram
os vestígios do calvinismo no Brasil.
3. O Protestantismo de Imigração
O protestantismo em geral e o presbiterianismo em particular puderam estabelecer-se
definitivamente no Brasil somente após a chegada da família real, em 1808.
Em 1810, Portugal e Inglaterra firmaram um Tratado de Comércio e Navegação,
cujo artigo XII, pela primeira vez em nossa história, concedeu liberdade
religiosa aos imigrantes protestantes. Logo, muitos deles começaram a
chegar de diversas regiões da Europa, entre eles reformados franceses,
suíços e alemães. Em 1827, por iniciativa do cônsul da Prússia, foi fundada
no Rio de Janeiro a Comunidade Protestante Alemã-Francesa, que congregava
luteranos e calvinistas.
Durante várias décadas, o calvinismo ficou restrito às comunidades imigrantes,
sem atingir os brasileiros. Os poucos pastores reformados ou presbiterianos
que por aqui passaram limitaram suas atividades religiosas aos estrangeiros.
Tal foi o caso do Rev. James Cooley Fletcher, um pastor presbiteriano
norte-americano que teve uma longa e frutífera ligação com o Brasil a
partir de 1851. Ele deu assistência religiosa a marinheiros e imigrantes
europeus, procurou aproximar o Brasil e os Estados Unidos nas áreas diplomática,
comercial e cultural, e escreveu o livro O Brasil e os Brasileiros, publicado
em 1857. Por meio de seus contatos com políticos e intelectuais brasileiros,
Fletcher contribuiu indiretamente para a introdução do protestantismo
no Brasil. Foi por sua sugestão que o missionário congregacional inglês
Robert Reid Kalley veio para o Brasil em 1855. Finalmente, o presbiterianismo
foi implantado entre os brasileiros pelo Rev. Ashbel Green Simonton, que
aqui chegou em 1859.
II. História da Igreja Presbiteriana do Brasil
A história da Igreja Presbiteriana do Brasil divide-se em períodos bem
definidos.
1. Implantação (1859-1869)
O surgimento do presbiterianismo no Brasil resultou do pioneirismo e desprendimento
do Rev. Ashbel Green Simonton (1833-1867). Nascido em West Hanover, na
Pensilvânia, Simonton estudou no Colégio de Nova Jersey e inicialmente
pensou em ser professor ou advogado. Influenciado por um reavivamento
em 1855, fez a sua profissão de fé e, pouco depois, ingressou no Seminário
de Princeton. Um sermão pregado por seu professor, o famoso teólogo Charles
Hodge, levou-o a considerar o trabalho missionário no estrangeiro. Três
anos depois, candidatou-se perante a Junta de Missões da Igreja Presbiteriana
dos Estados Unidos, citando o Brasil como campo de sua preferência. Dois
meses após a sua ordenação, embarcou para o Brasil, chegando ao Rio de
Janeiro em 12 de agosto de 1859, aos 26 anos de idade.
Em abril de 1860, Simonton dirigiu o seu primeiro culto em português.
Em janeiro de 1862, recebeu os primeiros conversos, sendo fundada a Igreja
Presbiteriana do Rio de Janeiro. No breve período em que viveu no Brasil,
Simonton, auxiliado por alguns colegas, fundou o primeiro periódico evangélico
do país (Imprensa Evangélica, 1864), criou o Presbitério do Rio de Janeiro
(1865) e organizou um seminário (1867). O Rev. Ashbel Simonton morreu
vitimado pela febre amarela aos 34 anos, em 1867 (sua esposa, Helen Murdoch,
havia falecido três anos antes).
Os principais colaboradores de Simonton naquele período foram seu cunhado
Alexander L. Blackford, que em 1865 organizou as Igrejas de São Paulo
e Brotas; Francis J. C. Schneider, que trabalhou entre os imigrantes alemães
em Rio Claro, lecionou no seminário do Rio e foi missionário na Bahia;
e George W. Chamberlain, grande evangelista e operoso pastor da Igreja
de São Paulo. Os quatro únicos estudantes do "seminário primitivo" foram
eficientes pastores: Antonio Bandeira Trajano, Miguel Gonçalves Torres,
Modesto Perestrelo Barros de Carvalhosa e Antonio Pedro de Cerqueira Leite.
Outras poucas igrejas organizadas no primeiro decênio foram as de Lorena,
Borda da Mata (Pouso Alegre) e Sorocaba. O homem que mais contribuiu para
a criação dessas e outras igrejas foi o notável Rev. José Manoel da Conceição
(1822-1873), um ex-sacerdote católico romano, que se tornou o primeiro
brasileiro a ser ordenado ministro do evangelho (1865). Conceição visitou
incansavelmente dezenas de vilas e cidades no interior de São Paulo,
Vale do Paraíba e sul de Minas, pregando o evangelho da graça.
2. Consolidação (1869-1888)
Simonton e seus companheiros eram todos da Igreja Presbiteriana do norte
dos Estados Unidos (PCUSA). Em 1869 chegaram os primeiros missionários
da igreja do sul (PCUS): George Nash Morton e Edward Lane. Eles fixaram-se
em Campinas, região onde residiam muitas famílias norte-americanas que
vieram para o Brasil após a Guerra Civil em seu país (1861-1865). Em 1870,
Morton e Lane fundaram a igreja de Campinas e, em 1873, o famoso, porém
efêmero, Colégio Internacional. Os missionários da PCUS evangelizaram
a região da Mogiana, o oeste de Minas, o Triângulo Mineiro e o sul de
Goiás. O pioneiro em várias dessas regiões foi o incansável Rev. John
Boyle, falecido em 1892.
Os obreiros da PCUS foram também os pioneiros presbiterianos no nordeste
e norte do Brasil (de Alagoas até a Amazônia). Os principais foram John
Rockwell Smith, fundador da igreja do Recife (1878); DeLacey Wardlaw,
pioneiro em Fortaleza; e o Dr. George W. Butler, o "médico amado" de Pernambuco.
O mais conhecido dentre os primeiros pastores brasileiros do nordeste
foi o Rev. Belmiro de Araújo César, patriarca de uma grande família presbiteriana.
Enquanto isso, os missionários da Igreja do norte dos Estados Unidos,
auxiliados por novos colegas, davam continuidade ao seu trabalho. Seus
principais campos eram Bahia e Sergipe, onde atuou, além de Schneider
e Blackford, o Rev. John Benjamin Kolb; Rio de Janeiro, que inaugurou
seu templo em 1874, e Nova Friburgo, onde trabalhou o Rev. John M. Kyle;
Paraná, cujos pioneiros foram Robert Lenington e George A. Landes; e especialmente
São Paulo. Na capital paulista, o casal Chamberlain fundou em 1870 a Escola
Americana, que mais tarde veio a ser o Mackenzie College, dirigido pelo
educador Horace Manley Lane. No interior da província, destacou-se o Rev.
João Fernandes Dagama, português da Ilha da Madeira. No Rio Grande do
Sul, trabalhou por algum tempo o Rev. Emanuel Vanorden, um judeu holandês.
Entre os novos pastores "nacionais" desse período estavam Eduardo Carlos
Pereira, José Zacarias de Miranda, Manuel Antônio de Menezes, Delfino
dos Anjos Teixeira, João Ribeiro de Carvalho Braga e Caetano Nogueira
Júnior. As duas igrejas norte-americanas também enviaram ao Brasil algumas
notáveis missionárias educadoras como Mary Parker Dascomb, Elmira Kuhl,
Nannie Henderson e Charlotte Kemper.
3. Dissensão (1888-1903)
Em setembro de 1888 foi organizado o Sínodo da Igreja Presbiteriana do
Brasil, que se tornou assim autônoma, desligando-se das igrejas-mães norte-americanas.
O Sínodo compunha-se de três presbitérios (Rio de Janeiro, Campinas-Oeste
de Minas e Pernambuco) e tinha vinte missionários, doze pastores nacionais
e cerca de sessenta igrejas. O primeiro moderador foi o veterano Rev.
Blackford. O Sínodo criou o Seminário Presbiteriano, elegeu seus dois
primeiros professores e dividiu o Presbitério de Campinas e Oeste de Minas
em dois: São Paulo e Minas.
Nesse período, a denominação expandiu-se grandemente, com muitos novos
missionários, pastores brasileiros e igrejas locais. O seminário começou
a funcionar em Nova Friburgo, no final de 1892, e no início de 1895 transferiu-se
para São Paulo, tendo à frente o Rev. John Rockwell Smith. O Mackenzie
College ou Colégio Protestante foi criado em 1891, sendo seu primeiro
presidente o Dr. Horace Manley Lane. Por causa da febre amarela, o Colégio
Internacional foi transferido de Campinas para Lavras, e mais tarde veio
a chamar-se Instituto Gammon, numa homenagem ao seu grande líder, o Rev.
Samuel R. Gammon (1865-1928).
A primeira escola evangélica do nordeste foi o Colégio Americano de Natal
(1895), fundado por Katherine H. Porter, esposa do Rev. William C. Porter.
Na mesma época, a cidade de Garanhuns começou a tornar-se um grande centro
da obra presbiteriana. Além do trabalho evangelístico, foram lançadas
as bases de duas importantes instituições educacionais: o Colégio Quinze
de Novembro e o Seminário do Norte, hoje sediado em Recife. No final desse
período, além de estar presente em todos os estados do nordeste, a Igreja
Presbiteriana chegou ao Pará e ao Amazonas.
No sul, foi iniciada a obra presbiteriana em Santa Catarina (São Francisco
do Sul e Florianópolis). A igreja também iniciou a sua marcha vitoriosa
no leste de Minas. O primeiro obreiro a residir em Alto Jequitibá foi
o Rev. Matatias Gomes dos Santos (1901). As igrejas de São Paulo e do
Rio de Janeiro passaram a ser pastoreadas por dois grandes líderes, respectivamente
Eduardo Carlos Pereira (1888) e Álvaro Emídio G. dos Reis (1897).
Infelizmente, os progressos desse período foram em parte ofuscados por
uma grave crise que se abateu sobre a vida da igreja. Inicialmente, surgiu
uma diferença de prioridades entre o Sínodo e a Junta de Missões de Nova
York. O Sínodo queria apoio para a obra evangelística e para instalar
o Seminário, ao passo que a Junta preferia dar ênfase à obra educacional,
principalmente por meio do Mackenzie College. Paralelamente, surgiram
desentendimentos entre o pastor da Igreja Presbiteriana de São Paulo,
Rev. Eduardo Carlos Pereira, e os líderes do Mackenzie, Horace M. Lane
e William A. Waddell.
Com o passar do tempo, o Rev. Eduardo C. Pereira passou a tornar-se mais
radical em suas posições, perdendo o apoio até mesmo de muitos dos seus
colegas brasileiros. Como uma alternativa ao jornal do Rev. Eduardo, O
Estandarte, o Rev. Álvaro Reis criou O Puritano em 1899. Em 1900 foi organizada
a Igreja Presbiteriana Unida de São Paulo, que resultou da fusão de duas
igrejas formadas por pessoas que haviam saído da igreja do Rev. Eduardo.
Na mesma época, um novo problema veio complicar ainda mais a situação:
o debate acerca da maçonaria.
Em março de 1902, Eduardo C. Pereira e seus partidários começaram a divulgar
a sua Plataforma, com cinco tópicos sobre as questões missionária, educativa
e maçônica. Após pouco mais de um ano de debates acalorados, a crise chegou
ao seu lamentável desfecho, em 31 de julho de 1903, durante a reunião
do Sínodo. Após serem derrotados em suas propostas, Eduardo Carlos Pereira
e seus colegas desligaram-se do Sínodo e formaram a Igreja Presbiteriana
Independente.
4. Reconstituição (1903-1917)
No início de agosto de 1903, os independentes organizaram o seu presbitério,
com quinze presbíteros e sete pastores (Eduardo C. Pereira, Caetano Nogueira
Jr., Bento Ferraz, Ernesto Luiz de Oliveira, Otoniel Mota, Alfredo Borges
Teixeira e Vicente Themudo Lessa). Seguiu-se um triste período de divisões
de comunidades, luta pela posse de propriedades, litígios judiciais. Uma
pastoral do Presbitério Independente chegou a vedar aos sinodais a Ceia
do Senhor. O período mais conflitivo estendeu-se até 1906. Nessa época,
o Sínodo contava com 77 igrejas e cerca de 6500 membros; em 1907, os independentes
tinham 56 igrejas e 4200 comungantes.
O prédio do seminário, no bairro Higienópolis, foi ocupado sem solenidade
em setembro de 1899. Os principais professores eram os Revs. John R. Smith
e Erasmo Braga (este a partir de 1901); o membro mais destacado da diretoria
era o Rev. Álvaro Reis. Em fevereiro de 1907, o seminário foi transferido
para Campinas, ocupando a antiga propriedade do Colégio Internacional.
A primeira turma de Campinas só se formou em 1912. Entre os formandos
estavam Tancredo Costa, Herculano de Gouvêa Jr., Miguel Rizzo Jr. e Paschoal
Luiz Pitta. Mais tarde viriam Guilherme Kerr, Jorge T. Goulart, Galdino
Moreira e José Carlos Nogueira.
A obra presbiteriana crescia em muitos lugares. A primeira cidade atingida
no leste de Minas foi Alto Jequitibá (Manhuaçu) e, no Espírito Santo,
São José do Calçado. Os primeiros pastores daqueles campos foram Matatias
Gomes dos Santos, Aníbal Nora, Constâncio Omero Omegna e Samuel Barbosa.
No Vale do Ribeira, o dinâmico evangelista Willes Roberto Banks continuava
em atividade. A família Vassão daria grandes contribuições à igreja.
Em 1907, o Sínodo dividiu-se em dois (Norte e Sul) e em 1910 foi organizada
a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana do Brasil. O moderador do último
sínodo e instalador da Assembléia Geral foi o veterano Modesto Carvalhosa,
ordenado 40 anos antes. A Assembléia Geral foi instalada na Igreja do
Rio de Janeiro e o Rev. Álvaro Reis foi eleito seu primeiro moderador.
Os conciliares visitaram a Ilha de Villegagnon para lembrar os mártires
calvinistas e comemorar o quarto centenário do nascimento de Calvino.
Na época, a Igreja Presbiteriana do Brasil tinha 10 mil membros comungantes,
outro tanto de menores e cerca de 150 igrejas em sete presbitérios. As
demais denominações tinham os seguintes números – metodistas: 6 mil membros;
independentes: 5 mil; batistas: 5 mil; e episcopais: cerca de mil. Em
1911, a IPB enviou a Portugal seu primeiro missionário, Rev. João da Mota
Sobrinho, que lá permaneceu até 1922.
Os missionários americanos continuavam em plena atividade. Devido a divergências
quanto ao lugar da educação na obra missionária, a Missão Sul da PCUS
dividiu-se em duas: Missão Leste (Lavras) e Missão Oeste (Campinas). O
Rev. William Waddell fundou uma influente escola em Ponte Nova, Bahia.
Pierce, um filho de Chamberlain, trabalhou na Bahia de 1899 a 1909. A
obra presbiteriana no Mato Grosso começou nesse período: os pioneiros
foram os missionários Franklin Graham (1913) e Filipe Landes (1915).
Em 1917, foi aprovado o Modus Operandi, um acordo entre a igreja brasileira
e as missões norte-americanas, pelo qual os missionários desligaram-se
dos concílios da IPB, separando-se os campos nacionais (presbitérios)
dos campos das missões. Em 1924, a Assembléia Geral reuniu-se pela primeira
sem qualquer missionário como delegado de presbitério.
5. Cooperação (1917-1932)
O maior líder presbiteriano desse período foi o Rev. Erasmo de Carvalho
Braga (1877-1932), professor do Seminário e secretário da Assembléia Geral.
Em 1916, participou com dois colegas do Congresso de Ação Cristã na América
Latina, no Panamá. Poucos anos depois, tornou-se o dinâmico secretário
da Comissão Brasileira de Cooperação, entidade que liderou um grande esforço
cooperativo entre as igrejas evangélicas do Brasil na década de 1920.
As principais áreas de cooperação foram literatura, educação cristã e
educação teológica. Foi fundado no Rio de Janeiro o Seminário Unido, que
existiu até 1932.
Outros esforços cooperativos desse período foram: (1) Instituto José Manoel
da Conceição, fundado pelo Rev. William A. Waddell na cidade de Jandira,
na Grande São Paulo (1928); objetivava preparar os jovens que depois seguiriam
para o seminário. (2) Associação Evangélica de Catequese dos Índios (1928),
depois Missão Evangélica Caiuá: idealizada pelo Rev. Albert S. Maxwell
e instalada em Dourados, Mato Grosso, num esforço cooperativo das igrejas
presbiteriana, independente, metodista e episcopal.
O Seminário de Campinas correu o risco de ser extinto por causa do Seminário
Unido, mas finalmente superou a crise. Em 1921, o Seminário do Norte foi
transferido para o Recife. As principais instituições educacionais das
missões eram o Colégio Agnes Erskine, em Recife; Colégio 15 de Novembro
(Garanhuns); Escola de Ponte Nova (Bahia); Colégio 2 de Julho (Salvador);
Instituto Gammon (Lavras); Instituto Cristão (Castro) e principalmente
o Mackenzie College. Os principais periódicos presbiterianos eram O Puritano
e o Norte Evangélico.
Em 1924, a Assembléia Geral encerrou o trabalho missionário em Lisboa.
No mesmo ano, Erasmo Braga e alguns amigos fundaram a Sociedade Missionária
Brasileira de Evangelização em Portugal, que enviou àquele país o Rev.
Paschoal Luiz Pitta e sua esposa Odete. O casal ali esteve por quinze
anos (1925-1940), regressando ao Brasil devido à constante falta de recursos.
Em 1921, morreu o Rev. Antonio Bandeira Trajano. Com ele desapareceu a
primeira geração de obreiros presbiterianos no Brasil, os da década de
1860. Outros obreiros falecidos nesse período foram: Eduardo Carlos Pereira
(1923), Álvaro Reis (1925), Carlota Kemper (1927), Samuel Gammon (1928)
e Erasmo Braga (1932). Além do seu trabalho na área religiosa, vários
dos pioneiros presbiterianos deram valiosa contribuição de ordem intelectual
e literária. Alguns autores e os livros que os celebrizaram são os seguintes:
Modesto Carvalhosa (Escrituração Mercantil), Antonio Trajano (Álgebra
Elementar), Eduardo C. Pereira (Gramática Expositiva), Otoniel Motta (O
Meu Idioma) e Erasmo Braga (Série Braga).
6. Organização (1932-1959)
Nas décadas de 1930 a 1950, a IPB continuou a crescer e a aperfeiçoar
a sua estrutura, criando entidades voltadas para o trabalho feminino,
mocidade, missões nacionais e estrangeiras, literatura e ação social.
O período terminou com a comemoração do centenário do presbiterianismo
no Brasil.
Nessa época, a igreja era constituída dos seguintes sínodos: (1) Setentrional:
estendia-se de Alagoas até a Amazônia, estando o maior número de igrejas
no Estado de Pernambuco; (2) Bahia-Sergipe: criado em 1950, quando o Presbitério
Bahia-Sergipe, antigo campo da Missão Central, dividiu-se nos presbitérios
de Salvador, Campo Formoso e Itabuna; (3) Minas-Espírito Santo: surgiu
em 1946, abrangendo o leste de Minas e o Espírito Santo, a região de maior
crescimento da igreja; (4) Central: formado em 1928, incluía o Estado
do Rio de Janeiro, bem como o sul e o oeste de Minas Gerais; (5) Meridional:
sínodo histórico (1910-47), abrangia São Paulo, Paraná e Santa Catarina;
(6) Oeste do Brasil: foi formado em 1947, abrangendo todo o norte e oeste
de São Paulo. No final da década de 50, foram entregues pelas missões
os Presbitérios do Triângulo Mineiro, Goiás e Cuiabá.
Nesse período, as missões norte-americanas continuaram o seu trabalho:
(1) PCUS: (a) Missão Norte: atuou no nordeste, onde o principal obreiro
foi o Rev. William Calvin Porter (†1939); o campo mais importante era
o de Garanhuns, onde estavam o Colégio 15 de Novembro e o jornal Norte
Evangélico; (b) Missão Leste: atuou no oeste de Minas e depois em Dourados,
Mato Grosso, cuja igreja foi organizada em 1951. (c) Missão Oeste: concentrou-se
mais no Triângulo Mineiro, onde o casal Edward e Mary Lane fundou em 1933
o Instituto Bíblico de Patrocínio. (2) PCUSA: (a) Missão Central: seus
principais campos eram Ponte Nova/Itacira, a bacia do Rio São Francisco,
o sul da Bahia e o norte de Minas.; (b) Missão Sul: atuou no Paraná e
Santa Catariana, fundindo-se com a Missão Central por volta de 1937. O
Rev. Filipe Landes foi grande evangelista no Mato Grosso (norte e sul).
Em Rio Verde, Goiás, atuou o Rev. Dr. Donald Gordon, que fundou um importante
hospital.
Trabalho feminino: as primeiras sociedades de senhoras surgiram em 1884-85
e as primeiras federações, na década de 1920. Os primeiros secretários
gerais do trabalho feminino foram o Rev. Jorge T. Goulart e as sras. Genoveva
Marchant, Blanche Lício, Cecília Siqueira e Nady Werner. O primeiro congresso
nacional reuniu-se na I. P. Riachuelo, no Rio de Janeiro, em 1941; o segundo
congresso realizou-se também no Rio em 1954.
A SAF em Revista foi criada em 1954. Mocidade: algumas entidades precursoras
foram a Associação Cristã de Moços (Myron Clark), o Esforço Cristão (Clara
Hough) e a União Cristã de Estudantes do Brasil (Eduardo P. Magalhães).
Benjamim Moraes Filho foi o primeiro secretário do trabalho da mocidade,
em 1938. O primeiro congresso nacional reuniu-se em Jacarepaguá em 1946,
quando foi criada a confederação. Entre os líderes da época estavam Francisco
Alves, Jorge César Mota, Paulo César, Waldo César, Tércio Emerique, Gutemberg
de Campos, Paulo Rizzo e Billy Gammon.
Missões Nacionais: em 1940 foi organizada na I. P. Unida a Junta Mista
de Missões Nacionais, com representantes da IPB e das missões norte-americanas.
Entre os primeiros líderes estavam Coriolano de Assunção, Guilherme Kerr,
Filipe Landes, Eduardo Lane, José Carlos Nogueira e Wilson N. Lício. Até
1958, a Junta ocupou quinze regiões em todo o Brasil, com cerca de 150
locais de pregação. Em 1950 foi criada a Missão Presbiteriana da Amazônia.
Missão em Portugal: os primeiros obreiros foram João da Mota Sobrinho
(1911-1922) e Paschoal Luiz Pitta (1925-1940). Em 1944 a IPB assumiu o
trabalho e foi criada a Junta de Missões Estrangeiras, com o apoio das
igrejas norte-americanas. Os primeiros missionários foram Natanael Emerique,
Aureliano Lino Pires, Natanael Beuttenmuller e Teófilo Carnier.
Outras organizações: (a) Casa Editora: começou a ser organizada em 1945,
no início da Campanha do Centenário, sob a liderança do Rev. Boanerges
Ribeiro. A primeira sede foi instalada em dependências cedidas pela I.
P. Unida, na Rua Helvétia. (b) Orfanatos: em 1910, a Assembléia Geral
planejou um orfanato para Lavras; em 1919, passou a funcionar em Valença,
e em 1929 veio a ocupar uma propriedade da I. P. de Copacabana em Jacarepaguá.
O orfanato foi denominado Instituto Álvaro Reis. (c) Conselho Interpresbiteriano
(CIP): foi criado em 1955 para superintender as relações da IPB com as
missões e as juntas missionárias dos Estados Unidos. Tinha mais autoridade
que o modus operandi de 1917.
Outras igrejas: (a) Igreja Presbiteriana Independente: em 1957, foi criado
o Supremo Concílio, com três sínodos, dez presbitérios, 189 igrejas, 105
pastores e cerca de 30 mil membros comungantes; O Estandarte continuou
a ser o jornal oficial. No final dos anos 30 houve um conflito teológico.
Em 1942, um grupo de intelectuais liberais (entre os quais o Rev. Eduardo
P. Magalhães) retirou-se da IPI e formou a Igreja Cristã de São Paulo.
(b) Igreja Presbiteriana Conservadora: foi fundada em 1940 pelos membros
da Liga Conservadora da IPI. Em 1957, contava com mais de vinte igrejas
em quatro estados e tinha um seminário. Seu órgão oficial é O Presbiteriano
Conservador. (c) Igreja Presbiteriana Fundamentalista: foi fundada em
1956 pelo Rev. Israel Gueiros, pastor da 1.ª I. P. de Recife e ligado
ao Concílio Internacional de Igrejas Cristãs (do líder fundamentalista
norte-americano Carl McIntire).
Neste período, a IPB participou de vários movimentos cooperativos: Associação
Evangélica Beneficente (fundada por Otoniel Mota em 1928), Associação
Cristã de Beneficência Ebenézer (dirigida pelo Dr. Benjamin Hunnicutt),
Missão Evangélica Caiuá, Instituto José Manoel da Conceição, Confederação
Evangélica do Brasil (fundada em 1934), Sociedade Bíblica do Brasil, Centro
Áudio-Visual Evangélico (CAVE, fundado em 1951) e Universidade Mackenzie,
que seria transferida à IPB no início dos anos 60.
Constituição da IPB: em 1924, foram aprovadas pequenas modificações no
antigo Livro de Ordem adotado quando da criação do Sínodo, em 1888. Em
1937, entrou em vigor a nova Constituição da Igreja (os independentes
haviam aprovado a sua três anos antes), sendo criado o Supremo Concílio.
Houve protestos do norte contra alguns pontos: diaconato para ambos os
sexos, "confirmação" em vez de "profissão de fé" e o nome "Igreja Cristã
Presbiteriana." Em 1950, foi promulgada um nova Constituição e no ano
seguinte o Código de Disciplina e os Princípios de Liturgia.
Estatística: em 1957, a IPB contava com seis sínodos, 41 presbitérios,
489 igrejas, 883 congregações, 369 ministros, 127 candidatos ao ministério,
89.741 membros comungantes e 71.650 não-comungantes. Os primeiros presidentes
do Supremo Concílio foram os Revs. Guilherme Kerr, José Carlos Nogueira,
Natanael Cortez, Benjamim Moraes Filho e José Borges dos Santos Júnior.
A Campanha do Centenário foi lançada em 1946, tendo como objetivos: avivamento
espiritual, expansão numérica, consolidação das instituições da igreja,
afirmação da fé reformada e homenagem aos pioneiros. A Comissão Central
do Centenário, organizada em 1948, enfrentou muitas dificuldades. Após
1950, a campanha ganhou ímpeto. A Comissão Unida do Centenário (IPB, IPI
e Igreja Reformada Húngara) planejou uma grande campanha evangelística
com a participação de Edwyn Orr e William Dunlap, que se estendeu por
todo o país em 1952. Outras medidas foram a criação do Museu Presbiteriano,
do Seminário do Centenário e do jornal Brasil Presbiteriano, resultante
da fusão de O Puritano e Norte Evangélico (1958). A 18.ª Assembléia da
Aliança Presbiteriana Mundial reuniu-se em São Paulo de 27 de julho a
6 de agosto de 1959. O lema do centenário foi: "Um ano de gratidão por
um século de bênçãos."
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